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A trajetória da fé

Rubens Goulart da Silva
Utinga, Santo André, SP


Comentários

 

 

A Bíblia faz notórias revelações sobre homens de fé. Entre eles, Moisés, que falou e agiu de forma extraordinária; Abraão, que é chamado pai da fé; Elias, que orou e veio fogo do céu; Eliseu, seu sucessor, que igualmente foi usado poderosamente por Deus; e tantos outros. Todos agiram por fé, porque sem fé não há resultados. A vida cristã é centrada na fé: “o justo viverá pela fé”, Hb 2: 4; “Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”, 1Jo 5: 4.

Tipos de fé

A fé natural se constitui num elemento puramente humano. Essa fé é daquele que crê que Deus existe, mas nele não deposita confiança. Qualquer pessoa pode possuí-la, independente de ser cristão ou não. É a fé que o agricultor tem quando semeia o trigo, o arroz, o feijão, com a esperança de que vai nascer. Satanás também acredita que Deus existe e tem poder, Tg 2: 19.

A fé salvadora nasce no coração pelo ouvir a Palavra de Deus. Leva o pecador a arrepender-se, a aceitar a salvação gratuita oferecida por Cristo e as promessas divinas acerca da salvação: “Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”, Rm 10: 17; “Vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus”, Ef 2: 8.

A fé como resultado do fruto do Espírito é uma das qualidades do caráter cristão produzida pela santificação. É uma fé que expressa fidelidade e que justifica: “Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, Rm 5: 1. A fé que atrai o amor de Deus ao coração: “e a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo...”, Rm 5: 5.

A fé como dom do Espírito é um equipamento sobrenatural, que concede ao crente poder de confiar em Deus nas ocasiões em que só um milagre pode alterar a situação. É um poder extraordinário de confiança no Senhor, capacitando para se valer dos recursos do poder divino. É um alto grau de fé, no poder e na misericórdia, mediante a qual até milagres podem ser operados, Hb 11: 32-34. A fé como dom permitiu que os perseguidos e os mártires fossem sustentados e se mostrassem perseverantes até o fim, At 5: 40-42.

Este dom capacita o crente a confiar quando tudo está aparentemente perdido, sem a mínima esperança de uma solução, atua visando fazer triunfar a vontade de Deus. Aqui, o impossível se torna possível, o abstrato se torna concreto, o invisível se torna visível, e o absurdo se torna uma possibilidade. Para Deus nada é impossível.

Considerações importantes sobre a fé

Distinguindo fé como dom e como fruto. A fé como fruto do Espírito é uma ação de Deus em nós, e a fé como dom espiritual é uma ação de Deus através de nós. A fé como fruto representa a crença incondicional em Deus. A fé como dom significa aquele poder sobrenatural de solicitar a intervenção divina de modo a gerar um ambiente propício para que Deus opere e transforme a situação.

Distinguindo o dom da fé, do dom de milagres. Embora o dom da fé se assemelhe ao dom de milagres, existe uma distinção importante. Exemplo: se, ao ser lançado na cova dos leões, Daniel tivesse causado a morte dos leões, isso poderia ser entendido como dom de operação de milagre; no entanto, ao permanecer no meio desses famintos e ferozes animais sem sofrer nenhum dano, Daniel evidenciou o dom da fé. O profeta demonstrou, pela sua aparente passividade, toda fé que depositava em Deus.

A diferença entre os dois dons é que, enquanto o dom de milagres requer uma ação concreta, o dom da fé se caracteriza pela atitude aparentemente passiva do crente.

O dom da fé não depende do nível de maturidade dos demais tipos de fé e tampouco pode substituí-los. Em 1Reis 18, o profeta Elias revelou um grau extraordinário de fé ao demonstrar uma inabalável confiança na intervenção de Deus diante do desafio dos profetas de Baal. Em 1Reis 19: 2-3, vemos sua fé falhar, ao fugir por cauda das ameaças da rainha Jezabel. Preservado e protegido pelo Senhor, nos tempos seguintes Elias pôde contemplar a vitória.

A fé e seus desdobramentos

Mateus 17: 14-20 está nos convocando a uma dimensão de fé a que não estamos acostumados. Ou nos esquivamos, ou tenhamos a coragem espiritual de assumirmos que é para hoje e para nós. Este acontecimento é mais bem explicado à luz de Marcos 9.

Jesus estava no monte da transfiguração com Pedro, Tiago e João. Ao pé do monte, os demais discípulos estão num bate-boca com os fariseus sobre doutrina, e são interrompidos pelo pai de um garoto possesso, que os discípulos não conseguem libertar. Então vem Jesus e expulsa. Seus discípulos então o questionam: “Por que nós fracassamos?”, Jesus explica que eles têm uma fé pequena.

A hipérbole é uma comparação exagerada que se usa para se ensinar um conceito, como: “as cidades são grandes e muradas até o céu...”. São ensinos que, na verdade, falam de problemas da vida. Jesus usa uma hipérbole para ensinar sobre a fé. Até que ponto minha fé, a minha caminhada com Deus, tem esse lado prático? Até que ponto minha fé me ajuda a derrubar as barreiras e não me deixa retroceder?

Estamos vivendo um Cristianismo exageradamente frio, metódico, racional, ritualístico, cerebral que nos impede de remover as montanhas. Hebreus 11 é uma descrição da fé, não uma definição. Fé não é um poder dirigido a Deus. É uma convicção no caráter de Deus. Digo isso por que:

A fé é proporcional à nossa integridade moral, v. 17: “Geração perversa...”. Perversão é um desvio moral, sinônimo de maldade, desvio de caráter, falência moral. Nossas faltas nos limitam, cedemos pequenas brechas, “permitimos areia na engrenagem”, abrimos pequenas concessões para o mal.

O que dá integridade é a pureza que traz paz e que dá ousadia diante de Deus. Parece que estamos presos por uma bola de ferro nos pés e não conseguimos caminhar. Essa bola é a falha do caráter, é fruto do pecado. Você não poderá ser intercessor, porque cada vez que chegar diante de Deus, chegará cabisbaixo, agoniado para pedir perdão.

A fé é proporcional à nossa integridade espiritual, v. 17: “Oh! geração incrédula...”. Incredulidade não é fé pequena, é ausência de quebrantamento. Nossa moral determina nossa doutrina, e isso endurece o nosso coração à voz do Espírito Santo. A fé é composta de quebrantamento; o diabo crê e estremece, mas não se quebranta e Deus quer gente quebrantada.

A fé é proporcional à nossa capacidade de experimentá-la, v. 9, 14. Ao descer do monte, tiveram uma experiência fantástica de fé. Fé é a nossa ousadia em colocá-la em prática. Fé não é acreditar Que, mas Em Deus. Fé é descer do monte para o vale e dizer ao demônio: “Sai em nome de Jesus”.

A fé é proporcional à nossa intimidade com Deus. Vamos ser sinceros: nossa fé é pequena, porque não conhecemos bem a Deus. Conhecer a Deus gera confiança nele, Jó 19: 25-27; Dn 3: 17. Paulo disse: “Eu sei em quem tenho crido, e estou bem certo que é poderoso para guardar o meu tesouro até o dia final”. Assim, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó precisa ser o seu Deus.

 Conclusão

Como começo esse processo que conduz a uma nova dimensão espiritual? Através de uma decisão radical: vou mudar de vida, quero aplainar caminho, endireitar veredas ao Senhor. Quebrante seu coração diante de Deus, Sl 32, 51. Disponha-se a praticar a sua fé e coloque toda a sua confiança no caráter de Deus.

                                           Publicado no Jornal Aleluia de dezembro de 2006


 


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   Comentários dos leitores

Do pastor Norberto Guimarães
Igreja Batista - Goiânia, GO

Achei seu estudo muito bom, entretanto entendo também a fé numa perspectiva funcional que, em linguagem atual, consiste em um ímã que atrai a nossa consciência a Deus e dá início à troca de comando da natureza humana caída (do "eu" para o "Eu Sou" de Deus, que é "Cristo").

A fé de Cristo demonstra a consumação desse relacionamento e executa e proporciona a troca firmando outro núcleo de comando da natureza, quando o dom terá papel importante, através do qual o universo de Deus tende a operar o Seu caráter, pois a pessoa convertida está sendo, realmente, preparada para viver no Céu de Deus, onde Jesus Cristo, o primogênito, já vive. A fé tem papel prático na Salvação daquele que se inclina a Deus e é claro que os aspectos conceituais contribuem para o processo.

A Bíblia diz que, enquanto nesse plano de entendimento, um pouco conhecemos e um pouco profetizamos, não se esquecendo, contudo de que a letra mata e o espírito vivifica, querendo dizer que enquanto vivemos nesse mundo, devemos buscar o equilíbrio das funções, dando a César o que é dele e a Deus o que é também d'Ele. Por isso, devemos orar e buscar a comunhão com Deus e cuidar dos bens materiais que porventura tenhamos no sentido de equilibrar essas duas jurisdições até que venha a tão Grande Salvação quando todos seremos também UM com o Pai, igualmente a Cristo, oportunidade em que só o AMOR eternizará, visto ser intrínseco à criatura de Deus e que contribuirá para a comunhão perfeita!  Obrigado por ler.

Página atualizada em 13/03/2010