Uma análise de modelos
de cuidado pastoral
aplicada à realidade brasileira

 

Problemas é que não nos faltam nos dias atuais. E de toda ordem. Financeiros, políticos, emocionais, familiares, espirituais, de relacionamento, de saúde, de segurança, de moradia... Seu grau de agravamento decorre das influências das circunstâncias em que vivem ou trabalham as pessoas. E sobre eles ainda incide a pressão das mudanças éticas, morais, de costumes, de hábitos, deixando as pessoas confusas, a tal ponto que, na hora da angústia, não sabem qual é o melhor caminho a seguir. Assim, todos precisam de ajuda para sobreviver, de auxílio para conseguir enxergar seus problemas e de cuidado para melhor solucioná-los.

Aí está o campo para a atuação do conselheiro pastoral. Esse trabalho é normalmente desenvolvido pelos pastores, mas também pode ser feito pelos membros, desde que a liderança invista em cursos de especialização na área de psicoteologia.

Neste mês em que se comemora o Dia do Pastor, vamos fazer uma análise de alguns modelos de cuidado pastoral utilizados e aplicados à realidade brasileira.
 

Método libertador:
        liberdade em tempo oportuno

Libertar é uma sucessão de ações e reações com o objetivo de trabalhar com as pessoas para que sejam socorridas em tempo oportuno, tornem sabedoras das origens e desenvolvimentos da opressão e da dominação na sociedade em que vivem (1). Isso contribui para que entendam melhor sua vida profissional, financeira, social, psicológica e religiosa. Libertar não implica apenas em ações que tirem a pessoa da influência negativa do reino das trevas, mas também do reino dos seres humanos.

Todo processo de cuidado pastoral é uma ação ou realização continuada e prolongada de alguma atividade que vise, ao final, o bem-estar daquele que necessita de cuidados (2). Porém, trilhar esse caminho de auxílio ao outro exige uma análise critica dos fatores que envolvem a vida da pessoa em questão. Isso pode revelar as diversas origens do problema e, também, direcionar para os melhores caminhos a fim de solucioná-los.

Os problemas de origens pessoais podem ser identificados na história de vida do aconselhado e têm muito a revelar sobre quem é a pessoa, como chegou ao ponto em que está. Identificadas as raízes das questões que a atormentam, ficará mais fácil desenvolver um trabalho de acompanhamento, de cuidado pastoral, até que haja libertação dos sentimentos negativos, dos pensamentos ruins e da forma de vida que prejudica a si mesmo e aos outros.

Quando um indivíduo nasce, já encontra uma estrutura pronta para recebê-lo. No decorrer de seu crescimento, ele não se adaptará a muitas questões que são consideradas normais para outras pessoas. Isso lhe trará conflitos interiores entre aquilo que pensa ser o correto e aquilo que todos dizem ser o certo. A estrutura política, social, financeira, familiar e outras vigentes durante o tempo de existência de uma pessoa poderão trazer problemas que exigirão maiores cuidados pastorais.

As relações, os processos e as estruturas sociais, enquanto formas de dominação política e apropriação econômica, produzem uma história de vida de muitas pessoas plena de diversidades, disparidades, desigualdades, antagonismos. As condições de sobrevivência, o trabalho das diversas categorias profissionais e as classes sociais são de fundamentais importâncias para uma análise e identificação dos problemas de origens sociais. A libertação social precisa fazer parte da visão de quem faz um trabalho de orientação, pois a raiz dos problemas poderá estar lá.

Identificada a origem das dificuldades da pessoa que busca ajuda pastoral, é necessário avaliar as opções de soluções existentes que favoreçam uma mudança de vida por parte de quem precisa passar pelo processo de libertação. A militância política pode auxiliar na derrubada de sistemas que oprimem e destroem o ser humano. O cuidado pastoral orientado por este modelo pensa em uma teologia da libertação que vise à melhoria de vida em todos os aspectos da população. É um grande caminho para cuidar daqueles que almejam uma libertação.
 

Método empoderador:
        poder para lutar e vencer

Empoderar significa admitir que cada cidadão tem dentro de si forças necessárias para encarar certos problemas. É encorajá-lo a colocar seu potencial, sua inteligência, sua força interior em prática de forma justa e útil para si mesmo e para os outros (3). Significa promover a iniciativa e a participação das pessoas na sociedade e na igreja. Constitui em tirar das mãos de poucos e colocar nas mãos de muitos o poder de decidir os rumos da sociedade. O cuidado pastoral orientado por este modelo é a base do processo de reestruturação psicológica, mobilização social e participação religiosa.

Não se podem atender pessoas eternamente, como se elas não tivessem as menores condições de assumir suas responsabilidades da vida e superar suas dificuldades. As pessoas precisam aprender que têm condições de resolver muitos problemas sozinhas, basta que passem a acreditar no potencial que têm.

A vida é composta de problemas que precisam de auxílios para serem resolvidos e de situações difíceis que exigem uma ação particular por parte de quem está enfrentando a fase negativa. O conselheiro cristão pode empoderar seus aconselhados para que eles consigam caminhar sozinhos pelas estradas da vida.

Os problemas e as coisas boas que existem na sociedade não são obras dos deuses. A vida em sociedade é o resultado da ação do ser humano que compõe essa sociedade. Isso significa que toda ação ou omissão faz do ser humano o sujeito da história e não um simples espectador. Por isso, o conselheiro não pode pensar apenas na fragilidade humana, mas em dar mais atenção à capacidade pré-existente nas pessoas. O conselheiro terá de promover a iniciativa das pessoas, acreditando que elas são capazes de resolver os problemas que afetam diretamente suas vidas.

Quando Deus criou o homem, concedeu-lhe a capacidade de dominar e administrar. Isso implica em que a pessoa está dotada de meios para gerir sua vida e transformar o que for necessário para que tenha uma vida melhor. Essa capacidade administrativa é como uma chama que a pessoa carrega dentro de si. O cuidado pastoral orientado por esse modelo implica em dar vigor a essa chama, a essa energia que a história e as circunstâncias, às vezes, conseguem enfraquecer.

Os processos de marginalização criam um forte sentimento de impotência, de franqueza, nas pessoas a tal ponto que elas se acomodam, não acreditam mais em si mesmas, não conseguem mais visualizar mudanças no presente e nem no futuro, pensam que a vida é assim mesmo e desistem de tudo. Mas “o cuidado pastoral orientado por este modelo ‘extrai e constrói’, a partir das forças e recursos amortecidos de indivíduos e de comunidades, estratégias e métodos que minimizem ou eliminem o sentimento de impotência política e incapacidade pessoal” (4). Assim, haverá pessoas e igrejas que construam a democracia e a participação; construam um país em que seus cidadãos promovam uma vida digna para todos.

 
           
Método terapêutico:
        a produção de cura interior

O curso da vida do ser humano o expõe as diversas perdas, a variados problemas e a muitas frustrações. O resultado é que muitos sentimentos negativos, em maior ou menor intensidade, ficam registrados no interior da pessoa. Esse arquivo mental contém registros negativos de problemas não resolvidos e isso acaba por colocar dificuldades, barreira na vivência diária. Isso acompanha o indivíduo e, com o tempo, produz uma desarmonia em muitas questões e desabam sobre as pessoas que estão à sua volta. Esse condicionamento mental negativo não permite que prossiga sua jornada diária, pelo contrario, cria diversos obstáculos psicológicos que acabam por refletir no comportamento (5).

O cuidado pastoral orientado por este modelo tem como objetivo a produção de cura das doenças da alma a tal ponto que o indivíduo passe por mudanças e sua vida venha ter estabilidade, equilíbrio, alívio, descanso e paz em Deus. A psicoteologia, através de terapia, será utilizada com um meio de elaboração e mudança interna na vida daquele que foi criado à imagem e semelhança de Deus. Terapia é toda intervenção que visa tratar os problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos, suas causas e seus sintomas, com o fim de obter um restabelecimento da saúde ou do bem-estar (6).
 

Método ministerial:
        a utilização das atividades da igreja

O método ministerial envolve o dia-a-dia da vida cristã através das diversas atividades da igreja. A metáfora bíblica que mostra essa questão é a do pastor de ovelhas, que é uma pessoa que cuida do rebanho de Deus. Na prática, ele lidera, alimenta, consola, corrige e protege. Estas responsabilidades pertencem a todos os membros da igreja (7). Uma escola de treinamento fará com que as potencialidades das ovelhas sejam exercitadas para auxiliar o líder a cuidar do rebanho nas programações da igreja.

O culto é o momento de adoração ao Senhor e pode ser aproveitado para cuidar das pessoas. A oração pode ser ferramenta para Deus trabalhar no interior dos ouvintes, o louvor pode entoar cânticos que tenham letras que falem do amor e da ação de Deus em prol daqueles que o buscam, a pregação pode desenvolver temas na área de psicoteologia. O culto pode servir de porta de entrada para que as pessoas problemáticas procurem ajuda pastoral.

A pregação é o momento do culto em que a Palavra de Deus é explicada para os ouvintes. Muitos possuem problemas e não sabem como resolver e, pior, têm vergonha de procurar o gabinete pastoral para melhor ser atendido. A explanação de temas relevantes da atualidade apontará propostas de soluções de problemas. O sermão é um eficiente recurso eficaz de aconselhamento e de cuidado pastoral.

O serviço cristão é um meio de fazer com que a ovelha perceba sua importância dentro da comunidade cristã, resgate sua auto-estima, desenvolva um sentimento de utilidade, restabeleça o prazer de viver e de se relacionar com outras pessoas e aprenda a servir seu próximo. Há muitas atividades na igreja que podem ser delegadas para os membros executarem. O sentimento de utilidade fortalece a auto-estima, auto-aceitação e auto-imagem.

A comunhão exige que um grupo de pessoas tenha sintonia de sentimentos, de modo de pensar, agir ou sentir. Eles se identificam com alguma coisa e têm algo em comum. No caso do Cristianismo, o ponto central de tudo é Jesus Cristo. Muitas atividades podem ser criadas para proporcionar momentos de confraternização cristã, principalmente, com aqueles que estão chegando agora para o meio da comunidade cristã (8). Muitas estão com problemas de relacionamento e não sabem o que fazer. A aceitação pela igreja cria o sentimento de acolhimento, a idéia de que ela pertence a um grupo, de que está sendo recebida da forma como é.

A administração local é liderada pelo pastor, mas muitas funções de apoio podem ser delegadas aos crentes que possuem formação naquela área. Por conhecerem melhor certas questões, trarão melhores resultados. Administrar é um conjunto de princípios, normas e funções que têm por fim ordenar a estrutura eclesiástica e o funcionamento da igreja. A definição das atividades semanais, dos horários em que elas acontecerão e a pré-fixação de todos os detalhes necessários para o bom funcionamento evitarão muitos problemas e muitas frustrações.
 

Método de interação pessoal:
        a bênção da comunhão cristã

A sociedade atual conseguiu desenvolver uma comunicação superficial em que se fala muito e, às vezes, animadamente, mas sem interação pessoal, sem revelar quem realmente é o falante e quem é o ouvinte. Os relacionamentos atuais são úteis para a manutenção dos vínculos de amizades dentro de um grupo ou comunidade, mas pouco revelam da personalidade, do caráter, do jeito de ser dos indivíduos, porque eles se escondem nas mais diversas formas, não querem se expor.

O cuidado pastoral orientado por este modelo desenvolve a “interação pessoal, em que as habilidades relacionais são utilizadas para facilitar o processo de exploração pessoal, esclarecimento e mudança em relação a comportamentos, sentimentos ou pensamentos indesejados. Aqui se focaliza mais o indivíduo. Valoriza-se a autocompreensão em termos de interpretação da causa das dificuldades, na perspectiva de escolas psicoterápicas especificas” (9). A pessoa não fica sozinha, isolada, mas descobre que seu envolvimento com a comunidade cristã pode lhe proporcionar momentos agradáveis em que seus traumas interiores sejam solucionados através do relacionamento, da comunhão e confraternização cristã.

O fundamento da interação pessoal é a demonstração positiva da percepção da presença do outro. Para que exista interação pessoal efetiva é necessário que as pessoas se reconheçam enquanto sujeitos na relação comunicativa. Cada indivíduo possui suas características pessoais que devem ser respeitadas e aceitas pelo outro. As outras questões devem ser adaptadas. Uma pessoa que deixa o estilo de vida não-cristão adotado pela sociedade, inicialmente terá algumas dificuldades com o mundo evangélico e a igreja poderá ajudá-la nessa fase inicial através dos eventos internos que exijam o envolvimento pessoal.

O conselheiro pode conscientizar as pessoas que um relacionamento só acontece e se desenvolve quando duas ou mais pessoas, cada uma com sua existência própria e necessidades pessoais, contatam uma a outra reconhecendo, respeitando e permitindo as diferenças entre elas. Nas confraternizações ou em qualquer outro momento de interação pessoal, cada um é responsável por si, por sua parte do diálogo, por sua parte no relacionamento. Isso significa que cada um é responsável por se permitir ser influenciado pelo outro, ou se permitir influenciar. Se ambos permitem, o encontro pode ser como uma dança, com um ritmo de contato e afastamento. Então, é possível haver o conectar e o separar, em vez de isolamento (perda de contato) ou confluência (fusão ou perda da distinção). 
 

Considerações finais

A prática do aconselhamento pastoral é fundamental na sociedade em que vivemos. As pessoas continuam com problemas, mas a igreja pode ajudá-las a vencer a si mesmas, às dificuldades interiores e aos obstáculos que se formaram no decorrer de sua existência. As pessoas precisam ser cuidadas, necessitam de apoio para continuar sobrevivendo e há métodos que podem ser utilizados pelo conselheiro pastoral.

Esse conselheiro não precisa ser necessariamente o pastor da igreja. Membros da igreja podem receber treinamento teórico e prático para auxiliar a liderança da igreja e ajudar aqueles que necessitam ser cuidados. Aceita esse desafio?

 

Notas bibliográficas

(1) SATHLER-ROSA, R. Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança, p. 39.

(2) COLLINS, G. R. Ajudando Uns aos Outros pelo Aconselhamento, p .15.

(3) COLLINS Fary R. Aconselhamento Cristão, p. 58-59.

(4) SATHLER-ROSA, R. Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança, p. 39.

(5) MAY, Rollo. A Arte do Aconselhamento Pastoral, p. 32.

(6) STONE, D. J & KEEFAUVER, L. Terapia da Amizade, p. 19.

(7) MacARTHUR, John Jr. Redescobrindo o Ministério Pastoral..., p. 14.

(8) ROSSI, Luiz Henrique Solano. A Vocação Terapêutica da Igreja, p. 120.

(9) SATHLER-ROSA, R. Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança, p. 40.

 

Referências bibliográficas

COLLINS, Gary R. Ajudando Uns aos Outro Pelo Aconselhamento. São Paulo: Vida Nova, 2002.

COLLINS Fary R. Aconselhamento Cristão. São Paulo: Vida Nova, 1984.

MacARTHUR, John Jr. Redescobrindo o Ministério Pastoral: moldando o ministério contemporâneo aos preceitos bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

MAY, Rollo. A Arte do Aconselhamento Psicológico. Petrópolis: Vozes, 1982.

ROSSI, Luiz Henrique Solano. A Vocação Terapêutica da Igreja. IN: Aconselha-mento Pastoral Transformador. MANFRED, W. Kohl; BARRO, Antônio C. (Orgs). Londrina: Descoberta, 2006.

SATHLER-ROSA, Ronaldo. Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança: uma hermenêutica teológico-pastoral. São Paulo: Aste, 2004.

STONE, David. J. & KEEFAUVER, Larry. Terapia da Amizade. Belo Horizonte: Atos, 2006.


 

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Fonte: Jornal Aleluia de junho de 2007.

 
 
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