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Comentário
 

A visão petrina
do trabalho leigo
na igreja

Pr. Francisco Araújo Barretos Neto   
Arapongas, PR     



Não existe verdadeira diferença fundamental entre pessoas leigas e sacerdotes, entre príncipes e bispos, entre aqueles que vivem em mosteiros e aqueles que vivem no mundo.
 A única diferença não tem nada a ver com status,
mas
com a função e trabalho que desempenham.”   
                                             
       Martinho Lutero.


         O conceito que cada um tem de igreja é um reflexo da sua confissão particular de . Ele funciona como força motivadora para a ação dentro do reino de Deus. Se pensar que igreja são todos os seus membros, descobrirá quemuito trabalho para se fazer em prol do Cristianismo. Esse envolvimento com o corpo de Cristo acontecerá independente de ter formação teológica ou não. Por isso, o leigo cristão é fundamental para o avanço do evangelho.

A palavra igreja (Ekklesia) não existe em 1Pedro, mas sim a expressão casa de Deus (Oikos to Theos) para se referir à reunião daqueles que aceitaram a Jesus como Senhor e salvador. Para o apóstolo Pedro, quem é filho de Deus pertence à raça eleita, à nação santa, ao povo de propriedade exclusiva de Deus e, para tanto, precisa desenvolver o sacerdócio real

           Todo cristão pode trabalhar na seara do Senhor

A imagem de igreja como um salão solidamente construído sempre produziu uma atitude de defesa e fechamento em relação ao mundo contemporâneo. Mas o conceito petrino de povo de Deus leva o crente a redescobrir seu espaço de trabalho no Cristianismo e a variedade de ferramentas espirituais concedidas pelo Espírito Santo.

As pessoas que aceitaram a Jesus como único Senhor e Salvador foram batizadas, aceitaram as Escrituras Sagradas como regra de fé e prática, precisam agora exercitar os dons, talentos e ministérios, com o auxílio do Espírito Santo. Para Pedro, quem faz isso mostra que pertence ao povo de Deus. Quem não faz nada na seara do Mestre precisa repensar sua fé em Jesus.

A concepção de que a igreja existe para servir à humanidade, através das boas-novas do evangelho, muda o dia-a-dia do cristão porque ele descobre que há muito por fazer no reino de Deus. Os pastores não conseguirão alcançar os objetivos sozinhos. O auxílio do leigo é fundamental para que o horizonte último da igreja deixe de ser ela mesma e se torne o reino dos céus.

A igreja é, antes de qualquer coisa, povo de Deus. Esse ponto de vista petrino abre espaço para que cada um desenvolva seu ministério cristão, mesmo não sendo um bacharel em teologia, que também tem seu trabalho a realizar. “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos”, Lc 10: 2. Há muitos que precisam ser evangelizados. Há outros que necessitam ser consolidados com os princípios básicos do cristianismo. Isso vai gerar grande quantidade de cristãos que devem ser treinados para que, quando forem enviados para desempenhar sua função, consigam melhores resultados. 


           
A seara necessita de pessoas para semear e colher

O apóstolo Pedro não utiliza o vocábulo grego laikos (leigo) para nominar os cristãos, porém usa a palavra laós (povo) para fazer separação entre os salvos e os não salvos, entre os cristãos e os gentios. Assim todo crente pode semear e colher para o bem no reino de Deus. O leigo é todo servo eleito por Deus, mas que não foi ordenado ao pastorado ou não cursou teologia. Para esses, continua existindo muito trabalho a fazer em prol do avanço do evangelho.

A distinção que 1Pedro 5: 1-3 faz tem mais a ver com a separação bíblica entre pastor e ovelhas do que com a idéia de que o pastor é obrigado a fazer tudo. Pedro não está dizendo que os leigos devem entrar na igreja, sentar nos bancos e esperar que sejam objetos da ação doutrinal, organizacional e evangelística dos pastores. Pelo contrário, todo crente em Jesus pode testemunhar sobre a graça de Deus e, conseqüentemente, tem um papel ativo na obra da salvação da humanidade.

Conceituar igreja como povo de Deus abre um grande caminho para o trabalho dos leigos cristãos, que são pessoas agregadas ao corpo de Cristo pelo batismo e, ao serviço cristão, pelo sacerdócio real. Por isso, a alegria de ser cristão, de ser membro da igreja, de ser discípulo de Cristo, faz parte da vida de todo o povo de Deus, tanto de ovelhas como de pastores.


           Evangelizar, consolidar e discipular é missão de todos

O leigo consegue dar excelente contribuição para a missão da igreja porque está em constante relação com a sociedade através de seu trabalho, seus estudos e de outras formas de convivência social. Tanto pastores como ovelhas precisam obedecer ao ‘Ide’ de Jesus, mas a ovelha está mais presente no dia-a-dia do mundo. Por isso pode dar grande apoio no crescimento e na edificação do corpo de Cristo.

A relação cristã do leigo com o mundo secular possibilita o anúncio das boas-novas com mais eficácia. A pessoa que está ouvindo pode ver o testemunho de alguém semelhante a ele e perceber que há solução para sua vida. Na igreja, o leigo pode atuar nas diversas funções existentes e agilizar a administração do templo, o desenvolvimento da igreja, a consolidação dos novos convertidos.

A união dos talentos naturais com os dons sobrenaturais auxilia o crente a fazer novos discípulos para Jesus Cristo. Haverá muitos pontos em comum entre discipulador e discipulando porque ambos têm uma vida similar fora da igreja que envolve trabalho, finanças, família, sociedade e outras questões. A ministerialidade cabe a todos os filhos de Deus.


           Conclusão

A realidade do século 21 exige a participação de pastores e ovelhas para a expansão do Cristianismo. Os leigos cristãos são fundamentais nesse processo. Nenhum pastor conseguirá chegar lá sozinho, porque Deus deixou essa missão para todos os seus filhos. Por isso, é fundamental a busca por novas formas de envolvimento do povo de Deus nas atividades diárias. Assim, todo cristão será um sujeito ativo e co-responsável para que a igreja tenha uma atuação eficaz diante dos problemas da humanidade.
 

Publicado no Jornal Aleluia de dezembro de 2005

Direitos autorais

Este artigo pode ser reproduzido livremente
para fins pessoais, sendo, porém, vedada sua publicação sem autorização formal da Editora Aleluia.

   Comentários dos leitores


De João Araújo Magalhães
Guarapari, ES

 

Achei muito interessante seu ponto de vista em relação à participação do leigo no trabalho da igreja, mas, penso eu, que em vez do leigo estar ocupado com o crescimento do reino de Deus, ele precisa se preocupar com o seu crescimento espiritual, tendo como ponto de partida que é um pecador que foi salvo para ser santo, isto é, que ele foi resgatado do reino das trevas, para torna-se semelhante ao Senhor Jesus Cristo que é o nosso verdadeiro padrão de santidade, ele precisa estar consciente de que seu espírito está livre, mas a sua alma precisa de ser transformada, para que ele realmente possa ser sal da terra e luz para o mundo. "Mas recebereis o poder ao descer sobre voz o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas... (Atos 1.8, Sal. 105-4) Se não colocarmos o Senhor em primeiro lugar nas nossas vidas, perdemos a capacidade de influenciar outras pessoas.