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O sofrimento
e suas fases

Pr. Adelço Belchior da Silva
Montes Claros - MG

  
       Comentário


A Bíblia fala sobre o sofrimento
como sendo um meio para acordar
o homem de sua materialidade
e levá-lo à busca da vida espiritual
ou de seu aperfeiçoamento.

 

  O sofrimento sempre esteve presente na história da humanidade e se constitui num tema complexo, difícil de entender e difícil de aceitar. Mesmo os homens de Deus não foram poupados da dor e da morte. O apóstolo Paulo disse que, na fraqueza, é que era forte e, ainda: “... aprendi a viver contente em toda e qualquer situação... Tudo posso naquele que me fortalece”, Fp 4: 11, 13. Assim sendo, vamos examinar, mais detidamente, quais são as fases do sofrimento e que conforto podemos obter para nossa vida pessoal.

    Rejeição à existência do sofrimento

É difícil aceitar a idéia de que o problema bateu à porta de nossa casa e entrou, sem pedir permissão. Há uma tendência no ser humano de achar que a vida sempre será um mar de rosas. Na vida cristã, então, nem se fala. É como se, para muitos, as rosas não tivessem espinhos. Admira-se tanto a sua beleza a ponto de negar a existência dos espinhos, até que eles espetem um dedo.

De fato, o ser humano não acredita que o pior possa acontecer consigo, mas sempre imagina que o mal só ocorre com o outro, com o filho do vizinho, com a pessoa que mora do outro lado da rua. Se algo muito ruim estiver ocorrendo conosco, reclamamos: não, isto não está acontecendo comigo! E assim é: todos nós rejeitamos o sofrimento.

Viver no mundo dos sonhos e da ilusão é mais fácil, pois não produz nenhum tipo de dor e todas as questões da vida são como a pessoa gostaria que fossem. Mas isso não faz parte concreta do dia-a-dia. É imaginário. Não é real. Ao nosso redor estão as falhas humanas, os conflitos familiares, os acidentes, os problemas, os traumas, as angústias, as perdas, a morte.

Todos procuramos viver assim, até darmos conta de que as dores existem efetivamente, transtornando o rumo de nossa vida, e que nem sempre é como uma pessoa gostaria que fosse. Por isso, a mente humana insiste em negar o problema do sofrimento, para evitar a dor emocional. É um mecanismo de defesa do mundo interior do ser humano.

  Revolta contra todos

Num segundo momento da vida, a “ficha cai” e o ser humano percebe que a dor existe também para ele. A pessoa está mais consciente da realidade do sofrimento. Ela já assume que algo indesejável está acontecendo consigo. Sendo assim, fica revoltada, começa a achar que Deus não existe, isola-se do meio em que vive, quase desiste da fé cristã. Rejeita a medicina e qualquer possibilidade de tratamento. É a fase da revolta consigo mesmo, com a vida e com Deus.

Racionalizando, alguns pensamentos invadem sua mente: “se Deus me ama, por que estou passando por essa dificuldade? Se Ele é onipotente, por que não resolve logo essa questão? Se o Senhor é onisciente, por que não faz alguma coisa e alivia minha dor? É, parece que o Senhor só ouve as orações dos outros”. Assim, a raiva, a ira, o desejo de abandonar o Cristianismo e manter distância de Deus se instalam em sua alma.

A pessoa fica explosiva, com estopim curto. Olha para os outros e não consegue entender por que conseguem estar bem e ela não. A revolta é tanta que, se pudesse pegar o sofrimento, colocá-lo em uma caixa junto com umas dinamites e explodi-los, ela o faria.

  Barganha com Deus

O tempo corre e vem uma terceira fase. A essa altura, reflete: “já que não tenho poder para eliminar este sofrimento, então vou tentar negociar a solução com o Todo-poderoso”. Agora o ser homem descobriu que não adianta vilipendiar o inevitável. De fato, o mal jaz à porta. Assim, a pessoa abandona a revolta, fica mais sensível, e procura concertar-se com Deus. Já aceita dialogar com o pastor, com a medicina ou com alguma coisa que dê solução ao seu estado aflitivo. Viaja em busca de cura, investe em remédios, faz qualquer tratamento e procura tudo o que possa aliviar sua dor. Nessa fase, o ser humano passa a barganhar com Deus a sua enfermidade.

Ouve testemunhos da ação do Senhor e pensa que poderá obter os mesmos resultados, se fizer tudo o que imagina que Deus quer de sua vida. Promete a si mesmo que fará o que for necessário para receber a solução, porém não faz isso de todo coração. Para ele, o importante é tomar alguma providência, não importa qual. É como se pensasse: “se eu orar mais, se eu jejuar mais, se eu ler mais a Bíblia, se participar mais dos trabalhos da igreja, se eu... se eu... Deus dará vitória”. É a fase da barganha.

Age como se fosse possível comprar o Senhor e, assim, livrar-se de sua dor. Julga que, se puder ter domínio sobre ambos - Deus e o sofrimento - vai poder determinar o resultado de qualquer situação, sem depender de um poder superior. Por esse caminho, a pessoa pretende tornar-se um deus, um senhor de todas as questões que envolvem sua vida. Por enquanto, ele acredita que é possível fazer essa barganha, mas não sabe que vai ficar em um beco sem saída.

  Aceitação de que não é um super-homem

Chegará, então, uma fase em que descobre que não adianta lutar contra o inevitável: o sofrimento ou a morte. Mais calmo, mais humilde, menos super-homem e mais ser humano, o homem procura fazer as pazes com Deus, com a família e com os amigos. Percebe os erros daqueles que estão à sua volta e, para que esses não entrem pelo mesmo caminho, tenta dar conselhos aos filhos, à esposa, aos amigos e, em caso de morte iminente, prepara-se para sua partida. Nessa fase o homem aceita o destino.

Embora seja esse o caminho de todos os que sofrem, o homem de Deus, aquele que seguir o caminho da sinceridade, encontrará conforto e alívio na fé. Sua segurança no Senhor lhe permitirá saber que vai marchando para uma vida melhor onde não haverá choro e nem tristezas. Poderíamos lembrar o conhecido exemplo de Jó, que soube enfrentar com alto nível espiritual os mais duros sofrimentos.

O profeta Jeremias, em 10: 19, afirma: “Ai de mim, por causa da minha ruína! É mui grave a minha ferida; então, eu disse: com efeito, é isto o meu sofrimento, e tenho de suportá-lo”. É difícil para o ser humano alcançar a maturidade de Jó ou do profeta Jeremias, mas não há outro caminho. Todos aqueles que conhecem a Palavra do Senhor e suas promessas encontrarão alívio e esperança em sua mensagem de vida.

Viver com Deus ou sem Ele é a grande diferença no dia-a-dia. Todos passam por momentos difíceis, todos morrerão um dia, não importa como. Ninguém faz nenhuma dessas opções. Por isso, ter hoje uma vida com o Senhor é uma alternativa pessoal, uma escolha certa. Aceitar a Jesus, ler a Bíblia para fortalecer a fé e crescer no conhecimento, orar e jejuar para edificação, participar das atividades da igreja para que o reino de Deus cresça é uma decisão que precisa ser tomada e vivida enquanto tudo vai bem conosco.

  Conclusão

Os homens de Deus sofreram e passaram por suas fases. Cristo, na eminência de seu martírio, pediu ao Pai que, se possível fosse, passasse d'Ele o cálice. Paulo orou por três vezes pedindo a cura de uma enfermidade, mas sem sucesso. Entretanto, sabemos que eles obtiveram vitória diante de Deus.

Não sabemos em que fase o leitor está neste momento. Se rejeição, revolta, barganha ou aceitação. Mas sabemos que Deus tem a solução para o problema que aflige o irmão.

   Publicado no Jornal Aleluia de abril de 2006

 

Direitos autorais

Este artigo pode ser reproduzido livremente
para fins pessoais, sendo, porém, vedada sua publicação sem autorização formal da Editora Aleluia.

 

   Comentários dos leitores


De João Araújo Magalhães
Igreja Metodista
Guarapari, ES

Gostei muito do artigo que o senhor escreveu, não só pelo tema em si, que é muito propício para nossa vida, mas pela verdade nua e crua, sem rodeios a respeito do sofrimento humano. Jesus disse que no mundo passaríamos por aflições. Ele não escondeu isso dos discípulos. Será que é sábio esconder dos incrédulos? Percebo que existem pastores omitindo as verdades essenciais da Palavra de Deus em suas mensagens. Por exemplo: que ele é pecador e precisa se arrepender de seus pecados, para que Deus possa perdoá-lo, para ele aguardar a volta de Cristo, que o inferno é real, que o diabo existe e quer destruí-lo, que a desobediência à Palavra de Deus traz maldições sobre sua vida, que ninguém está isento de sofrer, enfim... há muitos pastores seguindo o princípio de Dale Carnegie: "O caminho mais curto para alcançar o coração de um homem é falar de algo que ele aprecia". Timóteo foi avisado pelo apóstolo Paulo que apareceriam falsos profetas falando aquilo que o povo queria ouvir e não aquilo que eles precisavam ouvir, ou seja aquilo que Deus queria falar ao povo. Estão preocupados mais em encher suas igrejas do que povoar o céu. Que sua fome e sede por conhecer melhor o Senhor aumente cada vez mais, um abraço.