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Para falar de renovação espiritual,
 precisamos ler e estudar o que Jesus
pensava, falava e ensinava
a respeito desse assunto
tão necessário para a igreja de nossos dias.

 Veremos que é possível observar três etapas
na renovação: renovação de estruturas, renovação de liturgia e culto
e renovação espiritual.

 

Renovação de estruturas

A religião judaica, no período pré-cativeiro, enfrentou sérios problemas com a idolatria. Mas, no período pós-cativeiro, foi a filosofia helenista que se tornou uma tentação. Os aspectos sociais e culturais se tornaram um enorme atrativo para a população, tanto que muitos adotaram nomes, vestimentas e linguagem grega, tornando-se assim helenistas de espírito, perdendo muito de suas próprias culturas.

Na época do controle persa da Palestina, a Judéia foi governada por sumos sacerdotes que prestavam contas ao governo da Pérsia. Isso, é claro, garantiu certa autonomia aos sacerdotes, transformando a função sacerdotal em um cargo político disputadíssimo que foi marcado com intrigas, invejas e até mesmo assassinatos.

Imagine agora como toda essa influência helenista e romana estava presente na cultura judaica, alterando os conceitos dados por Deus a Moisés sobre como deveria ser o procedimento na fé judaica. Assim, quando Jesus iniciou seu ministério, percebeu a necessidade urgente de propor uma renovação de estruturas dentro do judaísmo, mas, por sua vez, sabia que a tarefa seria árdua. Ele chocou os religiosos com frases do tipo: "Vocês ouviram o que foi dito pelos seus antepassados... Mas eu lhes digo...", Mt 5: 21-22 (NVI).

Em Mateus, capítulos 5, 6 e 7, Jesus reestrutura todo o conjunto de afirmações sacerdotais a respeito de qual era realmente o significado dos escritos sagrados da Torá (Lei de Moisés). Ele redefine conceitos sobre o modo e a função da religião, sobre a lei. Revê a questão do homicídio, adultério, divórcio, juramento, vingança, amor, obra social, oração, jejum, riquezas e preocupações da vida. Fala, ainda, sobre julgamento do próximo, persistência na oração, o caminho, prudência e insensatez. Jesus fez uma releitura da Lei.

Renovação de liturgia e culto

No Antigo Testamento, o culto tinha seus rituais e liturgias estabelecidos por Deus no Monte Sinai. Todo o sistema de culto girava em torno do Tabernáculo. Nada era feito fora dele (Êxodo 25 em diante). O livro de Levítico descreve o serviço dos levitas no tabernáculo. Ali tudo acontecia. Todos os objetos tinham de seguir regras rígidas de purificação para que pudessem ser introduzidos na presença do Senhor. O Tabernáculo e todos os seus móveis e utensílios eram considerados santos, Êx 40: 9.

No reinado de Salomão, o tabernáculo é substituído pelo templo. Os ofícios religiosos foram transferidos para o templo. Foi uma evolução na liturgia judaica, que define a mudança na característica nômade de Israel para a idéia de nação estabelecida com geografia e sem limites. Mas, o pecado de Israel fez com que esse período áureo fosse destruído. O templo erigido por Salomão deixou de existir por causa da idolatria de um povo que fora chamado para ser santo ao Senhor.

A idéia de templo é acrescida com a construção de sinagogas no período pós-exílio. Ao tempo de Jesus, o cenário religioso era esse. A adoração e o culto estavam reduzidos a meros formalismos litúrgicos. Em João 4 fica bem evidente a confusão sobre o lugar e a forma de adoração. Jesus expõe à samaritana a verdade, Jo 4: 24, e ensina sobre a renovação na liturgia e no culto que seriam exigidos por Deus a partir de então. Ele está falando do lugar (no espírito) e também do modo de adoração (em verdade).

A questão, diz Jesus, não é o lugar físico estipulado por judeu ou por samaritano, mas sim o lugar que Deus escolhera. Ele queria dizer que: "o lugar é no espírito de vocês", é dentro do coração, da alma, Dt 6: 5. A renovação na liturgia implica em sabermos que há um lugar definido por Deus, um jeito que Ele mesmo estipulou para a adoração. Não é da nossa maneira. Deus é quem vai receber a adoração e, portanto, é Ele quem define modo e lugar de ser adorado.

A verdade é a única forma de expressão aceita por Deus. Os cultos que só contenham beleza, aparência e sejam desprovidos de frutos acabam recebendo o julgamento divino, Mt 21: 18-22. Não podemos oferecer a Deus nada falso, pois Ele só aceita a verdade como adoração.

Renovação espiritual

A renovação espiritual tem de ser consequência e continuidade das outras duas renovações: da estrutura e da liturgia. Então, o que é renovação espiritual? Jesus define bem isso a Nicodemos, João 3, que vivia dentro uma religiosidade morta, apenas de aparência. Seu mundo espiritual era vazio até que numa noite ouviu algo que mudou sua história. Ele conheceu os princípios da renovação espiritual que havia tanto tempo que estava buscando.

Jesus foi direto, de uma sinceridade que chega a doer: "É necessário nascer de novo". Daqui surge toda renovação espiritual. Sem novo nascimento não existe nova vida. Portanto, nada pode ser renovado, se ainda não está vivo. O apóstolo Paulo escreveu: "se alguém está em Cristo, é nova criatura", 2Co 5: 17. Ora, se é nova, significa que já foi velha criatura.

Renovar é aceitar ser mudado em muitas áreas que a religiosidade acrescentou à simplicidade de servir a Deus. Ouvimos com certa frequência crentes pedindo com sinceridade a renovação espiritual. Mas percebemos com tristeza que o que ele está necessitando é de ressurreição. Não se pode renovar algo que está morto. A principal exigência da renovação espiritual é que se esteja, ao menos, vivo; pelo menos com um fio de vida.

Renovação é o ato de tornar novo algo envelhecido, quer seja pelo uso ou desuso. Precisamos rever nossas estruturas religiosas interiores, nosso estilo litúrgico e avaliar tudo isso, tendo como parâmetro a Palavra de Deus. A nossa tradição pode até ser boa, o nosso entendimento e conceitos podem ter sido elaborados a partir das melhores academias teológicas, a opinião dos nossos amigos pode até ser relevante, o que muitos líderes conceituados escrevem podem até fazer sentido, mas o único foro legal para avaliar nossas estruturas, liturgias e modo de vida é a Bíblia Sagrada.

Renovação espiritual é estar aberto para o avançar de Deus no cumprimento de seu propósito através da igreja, trazendo à luz aspectos ignorados de seu projeto. Aí está o problema com relação à renovação espiritual. Damos explicações lineares, quando são exigidas respostas profundas, confrontadoras e reveladoras.

Há toda uma cultura religiosa importada, que nos foi imposta, porque era tudo que nossos líderes do passado tinham. Há todo um meio ambiente que sofreu alterações por causa da nossa cultura miscigenada que herdamos de nossos descobridores. Há todo um deslumbramento pela teologia norte-americana e não há como negar que isso foi um veículo para o evangelho, mas, ao mesmo tempo, isso tudo nos engessou, nos aprisionou, tirou de nossas mãos a possibilidade de ver e de interpretar a renovação apenas com a visão bíblica e nada mais.

Renovação espiritual é receber o sopro de vida do Espírito Santo, Ez 37: 10, não ficando apenas embriagado no Espírito, Ef 5: 18, mas deixando Deus tratar o nosso caráter até que Cristo seja gerado em nós, Gl 4: 19.

Conclusão

Renovação espiritual é, hoje, o grito da igreja brasileira que anseia e crê que existe algo mais de Deus em sua Palavra. Clamamos por libertação das amarras estruturais, litúrgicas e cultuais e queremos a renovação que a Bíblia tem para oferecer sem nos esquecermos de que somos latino-americanos e que Deus contextualiza sua revelação para que ninguém fique excluído, pois Seu desejo é que todos os homens sejam salvos, 1Tm 2: 4.               

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Antônio Bueno da Silva é pastor da IPRB
à frente da IPR Central de Campo Grande, MS.
Artigo publicado no Jornal Aleluia em abril de 2003.
Inserido no site em 14/03/2010.
 

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