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Comentários

 

Você está matriculado numa escola informal
de período integral chamada vida.
A cada dia, nesta escola, terá a oportunidade
de aprender lições positivas e negativas.
Mas, não espere por uma crise
para descobrir o que é importante
em sua vida.
 

O diário espiritual do salmista Asafe, no Salmo 73, mostra uma página surpreendente, onde os acordes de louvor são trocados por uma crise pessoal de fé. Isso comprova que mesmo os crentes mais experientes não estão livres de períodos de desânimo em suas jornadas espirituais. Nem mesmo um salmista veterano.
 

O que a confissão mostra para hoje

A Bíblia é notável pela maneira como apresenta o caráter de seus personagens. Numa época em que partidos políticos, empresas e instituições diversas investem milhões em marketing, buscando os profissionais mais especializados para melhorarem a imagem de seus candidatos, produtos e serviços, as Escrituras não se preocupam, em nenhum momento, em amenizar as falhas de Abraão, Moisés, Davi, Pedro e outros.

Em dias que proliferam ministérios voltados para a adoração, vários ministros foram guindados a um “referencial de adorador”. Com o advento da internet, ministérios australianos, americanos e latinos têm influenciado a liturgia contemporânea. Mas, seria possível ouvir das celebridades da adoração: “tinha inveja”, v. 3; “purifiquei-me em vão”, v. 13; “estava embrutecido... era como um animal”, v. 22? Qual seria a reação da congregação ao ouvir o líder de louvor, ou o regente do coral a declarar: “Quase... desviei, quase... escorreguei”, v. 2?

A arca foi trazida por Davi a Jerusalém e o ministério de louvor dos levitas, que andava disperso nos dias de Saul, agora passava por um momento de restauração. Nomeado chefe do ministério de louvor, 1Cr 16: 4-5, Asafe passa a ocupar posição de destaque no culto. Sendo Jerusalém a capital do reino unificado de Israel, 2Sm 5:4-5, ele se tornou o líder nacional de louvor. E, nem por isso, imune a momentos de desânimo. Asafe fez de sua crise um documento público que foi consagrado como canção nacional.
 

A reflexão constata quem o cristão é

O cristão busca, em um culto, conforto, orientação espiritual e renovação. Asafe percebeu que os freqüentadores mais assíduos das reuniões não eram os abastados mercadores, nem os prósperos criadores de ovelhas e camelos, mas lavradores, artesãos e jornaleiros, ou seja, trabalhadores que ganhavam por dia ou por jornada.

Os olhos são nosso principal meio de contato com o mundo exterior. Segundo Machado de Assis, eles são “uns porteiros bem indiscretos do coração”. O salmista conduzia a congregação cantando a bondade do Senhor e, agora, seus pensamentos estavam aterrorizados, pois via um grupo fora do templo totalmente indiferente aos louvores. Seu co-ração encheu-se de inveja, verso 3. Por período de tempo, o louvor a Deus dividiu espaço com a contemplação do prazer transitório do pecado.

Onde leva a inveja e a cobiça? O desiludido pregador do Eclesiastes buscou o prazer e a satisfação em todos os meios possíveis em sua época, cavando um poço do qual não conseguia chegar ao fundo. No fim, ele se entrega e proclama com a voz cansada: “teme a Deus, e guarda os seus mandamentos...”, Ec 12: 13.

A caneta, a descrever aquilo que o coração cobiça, por meio dos olhos cheios de inveja, foi vivida por um crente calejado. “A maioria dos nossos problemas, por ironia, nos sobreveio do nosso desejo de progredir e viver melhor... Mas o progresso que nos trouxe vacinas e máquinas de lavar, nos trouxe também armas nucleares, aquecimento global e inúmeros produtos cancerígenos” - Phillip Yancey.
 

A desilusão entre teoria e prática

O salmista diz: “em vão lavei minhas mãos na inocência”, v. 13b. Um homem na casa dos 60 anos olha para trás e vê sua vida como um completo desperdício. Cantou, compôs, adorou, ministrou, adentrou o Santo dos Santos através do louvor e agora que o crepúsculo dos seus dias chegou, o que ele irá colher? Marcos fala das recompensas prometidas por Jesus, porém registra: “... com perseguições...”, Mc 10: 30. Somos a religião da cruz. Como uma sombra, ora nítida ora oculta, mas, sempre presente, a cruz sempre nos acompanha.

Aprendi que a igreja é o pronto-socorro de Deus. O mesmo hospital que possui maternidade e berçário, também tem U.T.I. e necrotério. Nos consultórios, jovens mães fazem exame pré-natal, e nos ambulatórios, pacientes passam por sessões de quimioterapia e hemodiálise. Nas rampas de acesso, táxis levam recém-nascidos para casa, enquanto as ambulâncias trazem corpos mutilados por acidentes e crianças vítimas de queimaduras, ataques caninos e balas perdidas...

Essa contradição assemelha-se à do ministério pastoral. Apresentamos crianças e sepultamos pessoas; participamos de formaturas e oramos por pessoas desempregadas; realizamos noivados, celebramos casamentos e somos chamados para assistir casais em crise; oramos em aniversários e visitamos membros com depressão. Mas, o evangelho não é o poder de Deus?

Ansiamos por vidas que sejam radicalmente mudadas como foram as de Jacó, Isaías e Saulo de Tarso, desejando que tenham o seu Peniel, mas, como explicar Caim, Belsazar e o jovem rico, que estiveram face a face com Deus? Deus só opera quando encontra um aceno positivo da parte da pessoa, Ap 3: 20. Caim e o jovem rico não deram esse aceno. Naqueles dias, cada ministração tornou-se um sufoco para Asafe. Podemos imaginá-lo frustrado por cantar um Deus de amor, enquanto via um mundo totalmente desajustado.
 

O retorno a Deus produz restauração

Como alguém perdido numa mata fechada ou numa grande cidade desconhecida, o ânimo do salmista esmoreceu e ele se entregou. Malcolm Smith diz: “ele se descreveu como estando afligido, fazendo uso de uma palavra que, com freqüência, é utilizada
no hebraico para descrever a pessoa picada por serpente. Reconheceu que se expusera de modo a ser picado pelo pai da mentira”
.

Ao bater o ponto diariamente no templo, Asafe percebe que algo deixou de ser conceito para se tornar real em sua vida: rotina. Ela tem o poder de engessar a mente, cauterizar os sentimentos e tornar a comunhão espontânea com Deus num ritual mecânico, desprovido de emoção e totalmente opaco. Spurgeon disse: “a adoração mecânica é fácil. Porém de nada vale”.

A presença de Deus no Santuário ofereceu a Asafe um olhar diferente sobre as pessoas e situações que ele presenciara. Ao usar a expressão “até que entrei no santuário de Deus”, v. 17, ele não se refere ao templo físico. Adentrar a presença de Deus é muito mais que ir a um culto. É estar em Peniel com Deus, face a face com o Senhor. Os cultos precisam ser autênticos encontros com Deus.

Impressionante é a reação de Asafe ao reconhecer o estado em que se encontrou: “estava embrutecido, e nada sabia. Era como um animal perante ti”, v. 22. Desprovidos de raciocínio, os animais agem baseados no instinto de sobrevivência. Envolvido pelas circunstâncias, Asafe deixou-se envolver pelo que via. Mas, ao ter a comunhão com Deus restaurada, o salmista passou a olhar tudo de forma diferente, ou seja, ter um olhar de fé.
 

Considerações finais

Engana-se quem imagina um salmista como um cidadão de olhar estático, a dedilhar uma harpa, como num êxtase fora deste mundo. Os relatos vividos por Davi, Asafe, Moisés, os filhos de Coré e inúmeros salmistas anônimos são reais, sejam suas alegrias, dúvidas, medos, anseios por justiça e vingança.

Os salmistas buscavam tornar Deus participante de todas as esferas de suas vidas, e isso não excluía suas crises. Salmos são isso: uma biografia pública de alguém que se lança num relacionamento com Deus. Restaurado pela graça divina, Asafe pôde, enfim, afirmar: “mas para mim, bom é aproximar-me de Deus”, Sl 73 e 28.

...................


João Ferreira de Freitas Filho é pastor da IPRB desde 13/02/2004.
Detentor do prontuário 1.315.
Pastor da 2ª IPR de Teófilo Otoni, MG.
Artigo publicado no Jornal Aleluia de abril de 2007.
Atualizada em 13/09/2011.

 

Direitos autorais

Este artigo pode ser reproduzido livremente
para fins pessoais, sendo, porém, vedada sua publicação
sem autorização formal da Editora Aleluia.

 

    Comentários dos leitores
De Clara Eugênia Barros Brasil
Igreja Assembleia de Deus
São Luís, MA

Pastor João Ferreira... Seu comentário sobre o Sl.73 é de um conteúdo tão grande que... quem me dera que pelo menos a metade dos cristãos lesse essa preciosidade de palavra! Obrigada. Que o Senhor Deus continue usando seus profetas... Que o Senhor Jesus continue abençoando você. A paz!
 

De Aminadab Carlos Lúcio de Oliveira
Igreja Assembleia de Deus
Ribeirão Pires, SP

Amado pastor, esta palavra veio para mim num momento muito delicado de minha vida. Peço a Deus que continue
te usando.
 

De Jader P. Carvalho
Igreja Cristã Gileade
Fortaleza, CE

Uma artigo muito bem escrito. Meu amado irmão escreveu com simplicidade e profundidade sobre as crises ou a crise existencial de Asafe. Gostaria de saber mais sobre esse ministro de louvor do Antigo Testamento, principalmente sobre suas funções, atributos e vida diária, se for possível. A finalidade é para terminar um musical de nossa igreja para o congresso de louvor.
 

De Ronaldo Barbosa
Assembléia de Deus
Serra, ES

Apreciei o artigo do Pr. João que conseguiu, em ricas palavras, expressar a profundidade da crise vivenciada por Asafe e, por que não dizer, dos Asafes contemporâneos.
 

Do Pr. Paulo César Neves
Igreja Presbiteriana Renovada
Ananindeua, PA

Achei este artigo de uma beleza ímpar. Com toda certeza, o Pr. João teve uma graça muito grande da parte de Deus, descrevendo um período onde pessoas que serviam ao Senhor não mascaravam suas vidas, mas quando recebiam a restauração produziam restauração por onde passavam.


Do Pr. Quisleu Panuci Lourenço
Igreja Presbiteriana Renovada
São João do Ivaí, PR

 

Parabéns ao Pr. João Ferreira pelo artigo. Realmente, uma leitura sincera da Escritura nos levará à compreensão de que a nossa espiritualidade não nos isenta das crises. Precisamos admitir essa verdade ou, então, vamos precisar de "máscaras" para esconder nossas fragilidades.

Página atualizada em 13/09/2011