Desde cedo, Simonton recebeu as melhores influências
morais, intelectuais e espirituais da fé presbiteriana em que fora criado e que
podem ser facilmente observadas no seu diário escrito a partir dos
dezenove anos de idade.
Quando viajava ao sul dos Estados Unidos, atuando como
professor, deixava transparecer, em suas reflexões e personalidade sensível,
profundo interesse pelas coisas espirituais, embora, até então, não tivesse
feito sua profissão de fé. Observava os problemas sociais de sua época, como,
por exemplo, mostrando-se radicalmente contra a questão da escravidão. Sobre o
comércio de africanos, considerava-o como um “tráfico desumano e nenhum homem
com sentimento humanitário poderia se engajar nele” (MATOS, p. 27). Não
concordava com o comportamento de homens que se aproveitavam dos seus
semelhantes para se beneficiarem economicamente.
Importava-se também com os pobres e, na antevéspera do
natal, expressou assim seus sentimentos: “O inverno chegou violento, neve e frio
para o prazer dos ricos e desespero dos pobres (...) Neste inverno haverá mais
sofrimentos entre as classes pobres do que jamais houve. Milhares de
trabalhadores já foram despedidos nas cidades e aglomerados industriais; os
aluguéis e a comida estão caros (MATOS, p. 78). A situação precária de milhares
de pessoas o incomodava, “isso consistia num grave problema social, o que não
passou despercebido por ele. Simonton era uma pessoa preocupada com o social,
almejando o bem-estar de todos” (ATAÍDES, p. 19).
Até então, não tinha tomado uma decisão de servir a Cristo,
pois lhe faltava uma profunda experiência com Deus. No entanto, sua conversão
não demorou muito em acontecer. Em março de 1855, a igreja, da qual sua mãe era
membro, promoveu uma campanha de oração onde ele se entregou a Cristo, assumindo
publicamente o seu compromisso com Deus. A partir daquele momento “passou a
considerar o ministério como possibilidade em sua carreira. Fez, então, uma
decisão corajosa que mudou para sempre o sentido da sua vida: respondeu
afirmativamente ao apelo do pastor” (ATAÍDES, p. 20).
Em resposta ao chamado, em julho daquele ano, ingressou no
Seminário de Princeton, a fim de preparar-se para o ministério. Ainda no
primeiro semestre, ouviu, na capela do seminário, um sermão que o despertou para
missões. “O pregador era o Dr. Charles Hodge, eminente teólogo e professor do
seminário, que o fez pensar seriamente na possibilidade de devotar-se à obra
missionária no estrangeiro. Aquele sermão tocou profundamente o coração sensível
do jovem seminarista Simonton, levando-o a pensar seriamente, pela primeira vez,
sobre o trabalho missionário” (ATAÍDES, p.23).
Com o consentimento de sua mãe, no dia 27 de novembro de
1858, encaminhou à Junta de Missões Estrangeiras o pedido formal para ser
missionário, mencionando o Brasil como campo da sua preferência, deixando, no
entanto, a decisão final aos cuidados da Junta. Foi aceito e ordenado pastor,
começando os preparativos para a viagem no ano seguinte.
Na manhã do dia 18 de junho 1859, despediu-se, no porto de
Baltimore, de sua mãe e de seu irmão John que o acompanharam até o navio. Sua
mãe escreveu no diário dela naquela ocasião: “É difícil separar-se daqueles que
talvez não vejamos mais na terra. Mas quando penso no valor das almas imortais
que se estão perdendo pela falta do Evangelho puro... Recomendo você com orações
e lágrimas ao Senhor, que tudo faz para o bem” (www.missiodei.com.br. In:
25/08/06). Oraram fervorosamente por ele e em
seguida embarcou num navio à vela chamado Banshee, rumo ao Brasil. Estava
deixando para trás sua pátria, família e amigos, muitos dos quais não mais veria
nesta terra. Foram 55 dias de viagem, mas desembarcou, finalmente, no porto da
capital do Brasil, o Rio de janeiro, no dia 12 de agosto daquele ano.
Quando Simonton chegou aqui havia muitos protestantes
ingleses (anglicanos) que tinham vindo para cá ao longo de meio século,
liberados por tratado comercial entre o Império do Brasil e a Inglaterra. No
entanto, eles não evangelizavam em razão das restrições que faziam parte do
acordo. A religião oficial do Brasil Imperial era o catolicismo romano.
Simonton vivia a grande expectativa de pregar o evangelho
aqui. Estava bem consciente de que devia amar as pessoas para ganhá-las para o
Senhor, pois ser missionário sem amor era, para ele, um mau negócio. Como
método de evangelização começou a dar aulas de inglês, como forma de estabelecer
contato com as pessoas e aperfeiçoar sua fluência na língua portuguesa, o que
lhe consistia um grande problema. Lutava para aprender o idioma o mais rápido
possível, a fim de que pudesse comunicar bem o evangelho. Três meses depois de
sua chegada ao Brasil escreveu: “O que mais me interessa agora é aprender a
língua... e enquanto não o completar, não tenho condições de ser útil aqui...
Todos os esforços que fiz até agora para aprender o português não tiveram
sucesso” (MATOS, p. 132).
Depois de alguns meses no Brasil, “no dia 22 de abril de
1860, num domingo, Simonton realizou a primeira Escola Dominical em sua casa,
sendo este seu primeiro trabalho em Português” (ATAÍDES, p. 40), o que o deixou
muito feliz.
Simonton não ficou apenas no Rio, mas visitou várias
cidades dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, deixando nelas
a semente do Evangelho, onde nasceram muitas igrejas presbiterianas.
No final de 1862, voltou a sua terra para visitar sua mãe
que estava enferma. Infelizmente, quando chegou ela já havia partido para o
Senhor. Teve a oportunidade de rever seus irmãos pela última vez, descrevendo
assim esse encontro: “a noite passada, ficamos conversando até tarde sobre o
passado e sobre os que partiram. Cada um contribuía com maior ou menor parte dos
tesouros de sua memória; muitos incidentes e lembranças foram revividos e a
conexão do presente com o passado parecia completa” (MATOS, p. 154).
Ainda no final daquele ano Simonton conheceu a jovem Helen
Murdoch com quem casara em 19 de março de 1863. Em seguida, vieram para o Brasil
e aqui Helen viveu cerca de um ano e veio a falecer por causa de complicações no
parto.
Simonton enlutado e sozinho escreveu suas mais dolorosas palavras: “Deus tenha
piedade de mim agora, pois águas profundas rolaram sobre mim. Helen está
estendida em seu caixão, na salinha de entrada. Deus a levou de repente que ando
como quem sonha” (MATOS, p.164).
A morte da esposa foi uma perda irreparável, um golpe do
qual jamais se recuperou. No entanto, continuou o seu ministério com muito
ardor. Com os colegas de ministério: Blackford, Schneider e Chamberlain, fundou
algumas igrejas Presbiterianas (Rio, São Paulo e Brotas), organizou um
Presbitério (o Presbitério do Rio de Janeiro), um jornal (Imprensa Evangélica),
um Seminário (Seminário Primitivo) e uma Escola Paroquial (no Rio de Janeiro).
Tudo isso ocorreu no curto período de oito anos e quatro meses.
Simonton fazia incansavelmente a obra de Deus e o seu
trabalho prosperava em vários lugares. Um dos frutos mais importantes do seu
ministério foi a conversão do padre José Manuel da Conceição, conhecido como JMC,
que se tornou uma peça chave na evangelização de muitas cidades nos estados de
São Paulo e sul de Minas Gerais. JMC foi o primeiro pastor brasileiro ordenado.
Em novembro de 1867, Simonton foi acometido de febre
amarela e não mais se recuperou. Apesar de ser devidamente assistido pelos
médicos, não resistiu e faleceu precocemente, no dia 09 de dezembro de 1867, aos
33 anos. O túmulo do missionário Simonton está ao lado do de JMC, no Cemitério
dos Protestantes, em São Paulo.
Em 12 de agosto de 1959, no centésimo aniversário de sua
chegada ao Brasil, a Igreja Presbiteriana do Brasil, colocou ao pé da lápide do
pioneiro uma placa comemorativa com a seguinte inscrição: “Primeiro centenário
da chegada do Rev. Ashbel Green Simonton ao Brasil. O seu trabalho não foi em
vão no Senhor” (MATOS, p. 30).
Em 12 de agosto de 2009 comemoramos os 150 anos da chegada
de Simonton ao Brasil para estabelecer o presbiterianismo. Como presbiterianos
temos motivos para louvar a Deus pela sua vida. Reconhecemos a importância de
seu trabalho, o qual continua frutificando para glória de Deus! Amém.
REFERÊNCIAS
ATAÍDES, Florêncio Moreira de. Simonton: o missionário
que impactou
o Brasil. Arapongas, PR: Aleluia, 2008.
MATOS, Aldery Souza (org.). O Diário de Simonton.
São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2002.
Helen Murdoch Simonton, filha de Ashbel e Helen, viveu quase toda sua
vida em Baltimore, estado de Maryland nos Estados Unidos, e faleceu aos
88 anos, no dia sete de janeiro de 1952.